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sábado, 30 de março de 2013

Golpe Militar de 1964, os motivos das Elites.


Recife, 1964. Beira da praia, brisa da noite, mansões dos usineiros. As garrafas de champanha são abertas. Festa. Pessoas bonitas, perfume, olhares de desejo, dentes brancos de alegria. As risadas unem o gozo ao deboche. Vida longa para o novo governo! Que nunca mais se falem em greves nem na maldita terra para os camponeses! Morte aos inimigos da Propriedade! 

Pouco longe dali, noite negra e silêncio. De repente, chegam os soldados. Vasculham os casebres. Procuram os inimigos da pátria. As pessoas simples têm medo. Precisam dormir cedo porque amanhã têm que ir para a roça cortar cana. Mas o olho continua aberto. Só a boca que continua fechada. No quartel, homens armados de fuzil arrastam o ancião. Espancado em praça pública. Maxilar quebrado por uma coronhada de rifle. Chutaram-lhe tanto os testículos, que arrebentou a bexiga. Vai urinar sangue por quase um mês. O Velho ferido está algemado. Ao seu redor, caminhões do Exército , berros de oficiais, rádios, holofotes, metralhadoras. Por que tanto aparato? Por que tantos homens, tantas armas, tanta força bruta? Por que o velhinho é tão perigoso?

Gregório Bezerra (1900-1983) nasceu no sertão de Pernambuco. Criancinha, viveu a fome e a prepotência dos latifundiários. Foi quase escravo. Brinquedo de menino era enxada e foice, sonho de um dia comer carne-seca. Nunca viu escola. Só aprendeu a ler e escrever com 24 anos, quando servia  exército. Instruiu-se e alcançou a patente de sargento. E nunca deixara o orgulho de ter sido militar. Pouco estudo formal, mas o conhecimento da vida e a argúcia do homem do povo. Certo dia, entrou em contato com aquela gente estranha. Falavam coisas que ele nunca tinha ouvido mas que, extraordinariamente, parecia já saber. Alguns eram até doutores, mas o tratavam como igual. Muitos dos estranhos eram como Gregório, como Severino, Como José, como tantos outros: mãos de calo, cara rasgada de sol, trabalho e sofrimento. 

Gregório ouviu, refletiu e juntou-se a eles. Voltou ao canavial, onde o homem perde a perna, ou o juízo, pela picada de cobra, o golpe errado do facão, o jeito doido do capataz falar. Mas agora, era ele que tinha o que dizer para contar para os seus irmãos de labuta. Nos campos, nos mocambos miseráveis, nas portas das usinas e das fábricas, Gregório seria a voz da consciência dos que ainda não tinham consciência, a posse dos que nada possuíam. Ele era o homem do povo que descobre a sua força e, finalmente, se levanta. Em vez de lamentar suas misérias, ergue-se para combatê-las. Sabia falar a língua dos humildes e fazer as perguntas decisivas: a quem pertence? A quem é dado? O que se deve transformar?

Os homens mais poderosos de Pernambuco o temiam. Gregório Bezerra, velho quase analfabeto, ferido e enjaulado em 1964. Líder camponês, ex-deputado federal constituinte, inimigo do latifúndio. Comunista. E se um dia todos aqueles homens e mulheres com as mãos grossas e rosto queimado se transformassem em dezenas de milhões de Gregórios? Era preciso evitar a qualquer custo. Por isso, Gregório Bezerra tinha sido preso. Naquele momento, os grandes senhores da terra comemoravam sua vitória. A festa do réveillon de 1964 acontecia em 31 de março. 

Nova História Crítica - Mário Schmidt 

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