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domingo, 25 de agosto de 2013

ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE OS 96 ANOS DE XAPECÓ.


 A nossa Chapecó completa hoje (25/08) 96 anos de fundação política e administrativa. O ato de fundação simbolizava uma nova era para o oeste do estado. Para muitos, significou e foi a chegada do progresso. Estas terras passaram a ter novos donos, novos valores sociais, culturais e uma forma diferenciada de tratar o diferente. Passou-se a valorizar as atividades econômicas, a exploração da erva mate, extração da madeira, venda de terrenos, criação de animais para o abate e a crianção de frigoríficos, surgiu e diversificou-se o comércio, nos tornamos conhecidos nacional e internacionalmente. Somos um dos maiores centros produtores de carne da América Latina.

É preciso dizer que antes de 25 de agosto de 1917, estas terras eram habitadas por índios, que viviam livres e não se importavam em ser donos da terra, para eles a terra é de todos e ela serve para alimentar, garantir a reprodução... não serve como objeto de negócio. Eles plantavam, colhiam mas não se importavam em produzir grandes excedentes para vender e ganhar dinheiro. Aqui também viviam muitos caboclos, que tinham uma casinha simples, um cuzco (cachorro), bebiam chimarrão e viviam tranquilos. Eles não tinham o sonho do progresso, não viviam para ganhar dinheiro, ficar rico para poder ganhar mais dinheiro. É claro que trabalhavam, mas a lógica não era a do migrante. 

É claro que o tempo e as coisas não mudam e não é isso necessariamente que eu desejo, não quero mudar e nem posso mudar o que já aconteceu, posso apenas refletir sobre os acontecimentos que nos trouxeram até aqui. A minha reflexão é no sentido de questionar. Por que esse mundo novo que se abriu a partir de 1917 não garantiu espaço para os moradores mais antigos (índios e caboclos)? Por que essa modernidade, esse sonho de progresso, tão propagandeado e tão comemorado pelos colonizadores de ontem e de hoje não foi capaz de garantir o mínimo de dignidade para índios e caboclos? Seria mesmo motivo de orgulho, gritar ao mundo que conseguiu desbravar as matas, vencer os animais? Vangloriar-se e construir um monumento no centro da cidade com um machado na mão para mostrar todo seu poder de domínio e força sobre a natureza, os índios e os caboclos. Seria esse o espirito do progresso? os motivos de tanto orgulho? 

A cidade cresce e se desenvolve a cada ano, o ensino superior está presente e logo nos tornaremos um centro de referência em educação. Temos muitas coisas boas a comemorar, disso eu não tenho dúvida. Mas não podemos nos enganar e fechar os olhos para as coisas que acontecem aqui. Temos muitas coisas mal resolvidas e mal explicadas ao longo de nossa História. Nos dias atuais não é diferente, tem muita coisa que ninguém bate no peito e tem orgulho de dizer. 

Chapecó é a cidade mais violenta do estado de Santa Catarina, temos os maiores índices de criminalidade, roubos e assaltos. Somos a cidade com o maior número de homicídios e crimes políticos do estado. Amargamos o maior número de mortes de homossexuais em SC. E somos também a cidade com maior número de crimes não resolvidos. Além dos negócios e do desenvolvimento, é preciso cuidar da vida das pessoas que vivem aqui, é preciso garantir que o direito e a liberdade de expressão sejam garantidos, que a livre orientação sexual seja respeitada. Não podemos mais viver como se vivia na primeira metade do século passado. 

Além de comemorar as várias razões e motivos de grandeza dos 96 anos de fundação da cidade, é preciso refletir sobre como foram percorridos estes 96 anos, como forma de atentar para os próximos anos que se avizinham. Será que ainda faltam algumas pessoas a serem incluídas nesse projeto de cidade, ou ela não comporta a todos? De que forma podemos aprofundar nossa democracia e a participação das pessoas nas decisões dos rumos da cidade? Será que iremos conseguir viver com respeito e dignidade entre negros, brancos, índios, caboclos e todos os tipos de mestiços, com toda sua variedade de opções e posições políticas e religiosas? Será que seremos capazes de aceitar e respeitar a orientação sexual de quem quer que seja? Será que estamos prontos para respeitar as opções políticas de cada um ou grupo político? O acontecimento do dia 19 com meu amigo Patrick Monteiro me fez penar em tantas coisas... e acho que o mais sensato é refletir sobre os rumos da nossa cidade... Gosto de viver aqui, minha vida se fez e se faz aqui. Por isso eu luto, sonho e quero uma Chapecó mais humana e mais segura para todos e não apenas para uma pequena parte.

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