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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

“Rolezinhos” qual a novidade?

O debate em torno dos “rolezinhos” tomou conta das redes sociais e do noticiário. Chama mais atenção do que as chacinas em São Paulo e Rondônia e mais até do que o caos nos presídios do Maranhão. Mas quem se importa com a vida de favelados e presidiários? Por que os “rolezinhos” chamam tanto a atenção? É que eles acontecem nos Shoppings Centers da maior metrópole do Brasil. Ah! Aí sim chama a atenção. Pelo que é noticiado, sabemos que são jovens da zona leste de SP de classe C que resolveram aparecer na praça de alimentação de “gente de bem”.

A gente fina de SP, os lojistas e os donos de Shoppings ficaram incomodados, pediram até ação na justiça para barrar a entrada destes jovens. Para não deixar dúvidas sobre o tamanho do pânico que as classes mais altas sentem da população mais pobre, os juízes concederam liminares barrando a entrada destes jovens. Mas pelo que li, os jovens da ZL só estão querendo se divertir, pegar umas minas e dar uns beijos. Ir ao Shopping faz parte da vida destes jovens, eles sempre frequentaram os próximos à periferia, parece que agora resolveram chamar mais atenção e entraram nas fortalezas centrais.   

Posições extremadas, debates acalorados e defesas com tom de idolatria a favor ou contra os “rolezinhos” são a tônica no facebook e twitter.  Sou muito curioso e gostaria de saber, quem entre os 14 e 19 anos de idade nunca reuniu a turma e saiu para dar um “rolezinho”? As pessoas que hoje estão na casa dos seus 30, 40 anos façam um exercício de memória e tentem se lembrar de como eram quando tinham a idade destes adolescentes e jovens. 

Eu participei de muito “rolezinho”, a diferença é que no meu tempo não tinha internet, celulares, redes sociais, e o pior, aqui em Chapecó nem shopping nós tínhamos. Nem por isso deixávamos de nos reunir e dar nosso rolé pela cidade só para achar umas minas, dar uns beijos e zoar por aí.

Vou relatar um acontecido do começo dos anos 1990 que guarda certa semelhança com a truculência ocorrida nos shoppings em SP. Tínhamos uma turma bem numerosa, estudávamos em escolas públicas, uma boa parte no Zélia Scharf e outros no Bom Pastor. Todo mundo gostava de ouvir rock, punk, hardcore, na época quem fazia sucesso e a cabeça da gurizada eram: Nirvana, Pearl Jean, Faith no more, Ramones, Sepultura, entre outros. Vestíamo-nos tal qual a moda daquele momento, era o que se pode chamar de grunge, camisa xadrez, camiseta, calça jeans e tênis, cabelo meio ou totalmente desarrumado. 

Fazíamos o estilo que os mais velhos denominavam de “rebeldes” e quando nos reuníamos, geralmente éramos chamados carinhosamente de “molecada maconheira”. Só que, além do estilo rebelde, nós estudávamos e a maioria trabalhava para custear suas vestimentas, discos e diversão. A questão é que queríamos nos diferenciar dos boyzinhos da cidade e também da turma que era chegada em música eletrônica, sertanejo e outros estilos.

Uma vez fizemos uma festa na casa do Isaac, comemos uma galinhada que a mãe dele havia preparado, tomamos fantica (vodca com fanta) e cuba de conhaque barato, nem dinheiro pra cerveja a gente tinha. Em seguida saímos para ir ao Clube Chapecoense, naquela noite ia rolar uma festa grunge. E lá fomos nós, andando pela Avenida Nereu Ramos, vestidos ao estilo da festa, sorriso estampado no rosto, altos papo, sem querer, mas, chamando a atenção das outras pessoas. 

Não deu outra, duas viaturas da polícia nos pararam, pistolas na mão e gritos de ordens: “mãos na cabeça e encosta todo mundo contra a parede”.  Recebemos alguns chutes, tapas e muitas palavras desrespeitosas, como não acharam nada, seguimos com o nosso rolé.  Só estávamos nos divertindo, caminhando pela rua em direção ao evento e conversando, qual o problema nisso? Acredito que nenhum, mas nem todos pensam assim.

A questão é que os jovens geralmente são rebeldes, gostam de se reunir em turmas, fazem isso em qualquer momento ou período da história, os hormônios estão à flor da pele, sempre querem se divertir e sair para dar um rolé. Isso não é de agora, a diferença de hoje se dá pelas condições econômicas e pelo acesso facilitado aos meios de comunicação, varia o gosto e o estilo musical.  A única coisa que não muda nunca é a posição e opinião dos conservadores. São sempre preconceituosos e violentos, usam da violência verbal e da proteção jurídica e policial para manter seus interesses e privilégios. Nem ao menos se importam em tentar entender o que se passa do outro lado do muro. Esse povo podia parar de olhar somente para o seu umbigo. 

Deixem os meninos brincarem.


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